quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Saudade da Pernambucanidade


Quando meu amigo Gaúcho chegou em Recife depois de um temporada em Uberlândia, terra de Natália, sua namorada, pedi que escrevesse algo para eu publicar no Propalando. Ele demorou um pouco, mas eis aqui o texto.

Teria sido uma experiência mais interessante caso ele tivesse passado alguns anos fora, mas não foi o caso... haha

Pois bem... Segue abaixo o texto. E aproveito para testar uma nova funcionalidade do blog. Para ler o texto completo é preciso clicar no ícone que aparece em formato de positivo ou cruz ou o que quer que seja.

A Saudade da Pernambucanidade

Passar um tempo longe destas terras me deu uma perspectiva diferente. Parece clichê, eu sei. É aquele velho papo de que se sente saudade das coisas quando se está longe. Porém, a saudade desta terra foi algo que ultrapassou o que se pode chamar de saudade.
Não foi apenas a saudade de uma terra, da família e dos amigos, mas sim de todo um conjunto de coisas que faz a Pernambucanidade. O povo, as ruas, as notícias, os problemas, as praias, as músicas, as chuvas inesperadas, os alagamentos, os debates, os revolucionários, os reacionários, enfim, tudo me deu saudade.

Não, não era a saudade de passear na praia de Boa Viagem e ver ostentado num arranha-céu o nome de um dos Coronéis que ainda reinam por estas bandas. Não, não era a saudade de andar por um centro de cultura capitalista (ou seja, cultura de dinheiro internacional) que muitos daqui arvoram ser o maior Shopping da América Latina. Não, não era a saudade de ver cerâmicas ou esculturas de mais uma família mandante. Não, não era saudade de ir pra boates que tocam músicas originadas em Londres ou Nova Iorque funcionando como mais uma correia de transmissão do Imperialismo da língua inglesa sobre nós, pobres latinoamericanos.
Era saudade do Forró! Me roí todinho assistindo pela televisão o São João de todo este Nordeste sabendo que de onde eu estava, a única manifestação parecida que eu vi foi uma dupla sertaneja cantando numa praça, com todo mundo sentadinho tomando seu quentão. Foi saudade desse rala-bucho gostoso, do suor dançante na testa, das letras que exaltam a cultura nordestina e os costumes destes que um dia hão de liderar a revolução brasileira.
Era saudade do nosso calorzinho morno! Era saudade do cuzcuz com salsicha, da macaxeira com charque, do queijo de coalho, da tapioca, de peixe de mar, de camarão, de sururu, de marisco, de inhame com ovo.
Era saudade dos mercados municipais! Acredite quem quiser, mas lá não se bebe em Mercado Municipal! Como assim, cara pálida???? Como não ter saudade de um Mercado da Madalena e seu arrumadinho? Como não ter saudade do Mercado da Boa vista e de sua cerveja gelada acompanhando um pirão?
Era saudade deste povo. Deste povo que se articula, deste povo que sonha, deste povo que luta, deste povo de luta! Deste povo herdeiro da Revolução Pernambucana, do patriotismo primo nestas terras brasileiras. Era saudade até dos reacionários, que, comparados com os de lá, quem diria, são considerados centristas.
Era saudade do nosso bairrismo. Era saudade da Bombonilha! Era saudade das ruas do Recife antigo, que remontam à épocas de velhas e novas dominações imperialistas, mas que aqui e acolá, vemos as marcas da Resistência, de um povo que não se deixa abater. Pixações e grafites, rua da Aurora, rua da Moeda, e tantas outras ruas do centro do meu recife.
Era saudade também dos cheiros de nossa terra. Este cheiro de mar, que só pelo cheiro me enche de Esperança Libertária, como se ele mesmo fosse responsável pelo sonho de liberdade desse povo. Era saudade do cheiro do mangue, que nos faz lembrar dia a dia que os homens e os caranguejos se misturam num ambiente, que um depende do outro pra sobreviver, e que se mantivermos as coisas como estão, um vai acabar virando o outro. Era saudade do cheiro acre da Agamenon Magalhães, uma chaga na face do Recife, ou melhor, vários dentes cariados, fétidos, que deixam à vista de quem quiser ver a imundície que a raça humana produz, e que joga direto no rio, que vai pro mar, que estes mesmos humanos se esbaldam no domingo....
Thiago Henrique (Gaúcho) – http://galinhacabidela.blogspot.com

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